terça-feira, 17 de agosto de 2010

Enquanto isso na cafeteria!.


Ela suspirou profundamente, pediu ao garçom sua sexta xícara de café e despejou lá dentro 8 colheres de açúcar. E com a elegante colherinha de prata, ela mexia, mexia, mexia, como se quisesse abrir um buraco na xícara, no pires, na mesa, no chão, um buraco onde ela pudesse se enfiar dentro e ficar ali em posição fetal até que toda sua raiva, tristeza, melancolia de sei lá o quê passasse.
Suas mãos tremiam muito e o tilintar que fazia a louça da xícara na louça do pires se misturava ao zumzumzum do salão, às pessoas, aos seus sorrisos da tarde, as suas lágrimas de pôr-do-sol, as suas carolinas muito doces, ao vento lá fora, à chuva que caía a cântaros, e era ela ali querendo não chorar, os garçons ziguezagueando, os baristas entretidos em sua arte, a mesa, as cadeiras, a fachada elegante do lugar, a nota de vinte em cima da mesa, que acabava de tocar seus dedos trêmulos.
“Filho da mãe”, ela resmungou vendo toda aquela gente ali e ela mesmo ali, sozinha, esperando por uma pessoa que certamente não viria. Ameaçou se levantar da cadeira e viu um par de pernas, um casaco molhado, e um sorriso absurdo. “Filho do pai também viu, não fui concebido imaculadamente”. Conteve o ímpeto de se atirar no pescoço dele, primeiro para enforcá-lo por ter sido tão idiota de deixá-la esperando ali, e depois para poder absorver cada partícula de cheiro que vinha dele, todas que pudesse, para poder cheirar seu lenço todos os dias quando as coisas estivessem ruins. Ele insistia em sorrir, e era difícil demais tentar mostrar-se aborrecida diante daquela coisa que não mostrava apenas dentes e gengivas, mas que saía dos olhos brilhando muito.
- Me desculpe por tê-la feito esperar por tanto tempo. Mas é que levei umas guarda-chuvadas na cabeça de uma senhora que me viu furtando algo de seu jardim. – disse ele sentando-se em frente a ela.
Ela limitou-se a levantar os olhos e apertar os punhos por debaixo da mesa, não querendo mas querendo ver mais um milímetro daqueles olhos. Ele tirou de dentro do casaco meio molhado pela chuva que caía lá fora uma flor amarela sem espinhos:
- Será que isso será capaz de substituir sua displicência por um sorriso? - Ela baixou os olhos e sorriu muito tímida, queria conseguir controlar a instabilidade de sua respiração antes de encará-lo. Ele chamou o garçom:
- Dois chocolates quentes, por favor. – disse
Ela abafou uma gargalhada discreta. Que ironia. Ela pôs todo aquele açúcar em seu café quando em seu subconsciente sabia que precisava de toda a serotonina contida em um chocolate pra preencher o vazio que sentia. Ele achou graça da gargalhada dela, que produziu um barulho engraçado, parecendo grunhido de criança. Aqueles barulhos estranhos que as pessoas só fazem quando estão rindo sinceramente. Ele agradeceu com os olhos sua sinceridade e ela entendeu perfeitamente.
Por mais de uma hora os dois ficaram sentados ali bebericando seus chocolates. Apenas se olhavam, e riam de timidez e nervosismo. Eles não diziam nada, mas naquele momento o silêncio não importava. Era legal ficar calado.
E apesar do silêncio, nenhum barulho externo parecia perturbar o frenesi que se instalara sobre eles.
Naquele instante, toda a cafeteria tinha cheiro de flor.