quarta-feira, 9 de agosto de 2017




“Eu sou feita de pedaços mínimos, milimetricamente espalhados. Não se juntam : desfalecem, despedaçam. Eu sou feita da minha rotina incansável de rimas em cantos de cadernos, esse é o meu fazer poético. Eu guardo palavras só pra mim, eu abrigo um céu estrelado no peito, uma nota dó nos lábios, sol nas curvas da minha mão. Eu integro as minhas ideologias a realidades impossíveis, entrego as minhas ideias ao acaso. Eu sou feita da luz que entra pela minha janela ao cair da tarde seca, em parte, sou composta pela aurora, vento e viro tempestade. Eu numerei os fins possíveis, impossíveis, os que eu quero que você conheça e guardei tudo na minha caixinha verde. Meu amor, o fim rima com tanta coisa bonita. Eu tenho partes do outono nos fios do meu cabelo e só subscrevo minhas certezas sobre ti quando me encontro entre os dois extremos mais lindos desse mundo todo: a sua insistência pela eternidade e seus olhos frios, não mais pura e crua ilusão. Eu vivo o cheiro de poesia, café e terra molhada. Eu sou aqui o que já não fui lá. E mudo, inconstante, os meus olhos que avistam o universo. Ninguém compreende a minha falta de jeito, você acha graça. Ninguém entende as minhas felicidades pequenas e frágeis que não exigem muito além de você ficar feliz com elas também. Quando eu te recitar Pessoa, espero muito que conheça seus outros eus e abrigue a sua metamorfose também. Faz bem aceitar a vida, guardar as memórias de dias de inverno, sentir a pele queimando o sol que hoje saiu. Quando eu te conto meus pequenos causos, não mais segredos, eu deposito minha imaginação ali, no teu toque. As minhas ideias mirabolantes de conquistar a lua na tua essência. Se eu te dou minhas papavras, espero que você aceite também a catástrofe que vive nelas. Como uma epifania : parte de mim agora, desde sempre. Um ser-estar bonito, perfeito encaixe aos teus feitos. É bom saber que você existe em mim. E que à parte das nossas maluquices, você tem o poder de destruir meus muros e medos e que você talvez seja a única pessoa que consegue me acalmar o corpo, me tirar da próxima queda e me trazer de volta à essa organização sem jeito que o mundo é. Eu sou feita desses pedaços todos, meu amor, e espero sempre que você possa juntar todo pequeno e desequilibrado detalhe deles.”

Arcádico